terça-feira, 21 de junho de 2011

ARTIGO - SEMANA PEDAGÓGICA SEED/CGE - 2008

OS DESAFIOS EDUCACIONAIS CONTEMPORÂNEOS  E OS CONTEÚDOS ESCOLARES: REFLEXOS NA ORGANIZAÇÃO DA PROPOSTA PEDAGÓGICA CURRICULAR E A ESPECIFICIDADE DA ESCOLA PÚBLICA [1]


Algumas análises das proposições das escolas nos planos de ação, elaborados por estas no início de 2008, nos remetem a traçar um rápido diagnóstico das possíveis incompreensões históricas, as quais envolvem a escola no âmbito de sua função social e neste sentido do próprio currículo. 
É preciso destacar que a forma como a escola concebe sua função social, a organização curricular, a gestão escolar e seu próprio Projeto Político-pedagógico pode,  em alguma medida, estar circunstanciado pelo conjunto das reformas educacionais situadas no contexto político, econômico e social. Em especial podemos, para efeito desta análise, contextualizar os condicionantes sobre a escola a partir do conjunto das políticas educacionais situadas a partir da década de 90. Embora os impactos destas reformas tenham sido  significativos sobre as dimensões destacadas acima (concepção de gestão, de currículo e, portanto, da função social da escola) este texto buscará analisar os reflexos sociais, políticos e econômicos sobre as propostas curriculares, a concepção de conhecimento e a especificidade da escola pública.  
            Antes desta análise, contudo, é possível situar o currículo como um produto histórico, resultado de um conjunto de forças sociais, políticas e pedagógicas que expressam e organizam os saberes que circunstanciam as práticas escolares na formação dos sujeitos que, por sua vez, são também históricos e sociais.  Nesta perspectiva, o currículo deve  oferecer, não somente vias para compreender  tanto os saberes nele inseridos, como também, os movimentos contraditórios pelos quais a sociedade vem enfrentando e de que forma os sujeitos se inserem neles.   O currículo da escola é a seleção intencional de uma  porção de cultura. Cultura por sua vez, refere-se a toda a produção humana que se constrói a partir  das interrelações do ser humano com a natureza, com o outro e consigo mesmo. Esta ação essencialmente humana e intencional é realizada a partir do trabalho, através do qual o homem  se humaniza e humaniza a própria a natureza.   Neste sentido, à escola  cabe erigir  seu papel fundamental na transmissão, apropriação e socialização dos saberes culturais, numa base teleológica (intencional) que pressuponha uma ação intencional e  transformadora da realidade concreta.
            Quando currículo expressa a centralidade das políticas educacionais, ele está   também  expressando as  intenções sociais, políticas, ideológicas e até econômicas que se manifestam sobre a escola e sobre as aspirações que se tem sobre ela. Assim, currículo acaba se manifestando nas tensões e  contradições  entre o caminho que se almeja percorrer, a intenção deste caminho e o ponto de chegada dele.
            Ao se caracterizar neste projeto de escola e de sociedade, o currículo se revela,  antes de tudo,  no Projeto Político-Pedagógico da escola, o qual  envolve todas as ações, aspirações e concepções sobre o ato educativo.
Em síntese, o currículo é a expressão das  concepções (de homem, de mundo, de  ensino e aprendizagem, de método e de educação), das aspirações sobre a escola e seu papel social, das práticas pedagógicas e das relações nela vividas. É, como consequência disto, a seleção intencional de conteúdos, saberes e conhecimentos, os quais devem  ser democratizados para toda a população, uma vez que são requisitos mínimos para a participação consciente  em uma sociedade cada vez mais excludente, seletiva e contraditória.
É, portanto,  na tensão sobre a explicitação do projeto de  escola pública e de sua especificidade, que se faz necessária uma análise, ainda que breve, dos reflexos da reestruturação política e econômica sobre a organização curricular das escolas e o impacto destas na forma como a escola historicamente tem concebido sua função social.
Muitos autores (KUENZER, 1997, HARVEY, 2004, ANDERSON, 1997) sinalizam para as políticas educacionais da década de 90 como  o resultado de um contraditório movimento pautado no fortalecimento da base empresarial, no progresso técnico, na sustentabilidade social, na abertura à economia internacional, na competitividade, na desregulamentação econômica,  nos ganhos de produtividade, no crescimento econômico e na elevação da expectativa de vida da população. De forma mais significativa é possível pontuar que este movimento indica a necessidade de reorganização do próprio capitalismo sobre as bases da desregulamentação financeira  (minimização do papel do Estado), bem como da globalização econômica.
Alguns documentos oficiais divulgados no contexto destas reformas  (CEPAL, PCNS, UNESCO) apontam, claramente, em  direção ao desenvolvimento de recursos humanos como sendo a base para  a transformação produtiva com equidade;  uma espécie de retomada da teoria do Capital Humano da década de 70.
Para isso, propõe um pacote de medidas que reestruture a educação e possibilite a capacitação e a incorporação do progresso técnico-científico e o acesso ao conhecimento com o objetivo explícito de adequar a educação às novas necessidades e especificidades do mercado, tendo em vista a reestruturação política e econômica.
Buscando sempre persuadir sobre a necessidade de formação humana na retomada desse desenvolvimento, estes documentos colocam a educação como a panacéia de resolução dos  problemas sociais e econômicos.
 De uma certa forma estas demandas foram imputadas à escola em duas dimensões complementares: de um lado a reestruturação produtiva[2] aliada ao modelo de desenvolvimentos econômico, e de outro os reflexos desta no acirramento das contradições sociais, políticas, culturais e ambientais. Deste modo, na busca de romper modelos padronizados e rígidos da modernidade, em nome de superar a fragmentação do conhecimento e as verdades absolutas, transfere à escola a responsabilidade de resolver problemas de qualquer natureza, necessitando para isso de novas abordagens curriculares inspiradas nesse novo modelo produtivo. Surge, portanto,  a pedagogia de projetos, a inter, trans, poli, multidisciplinaridade e transversalidade, expressas  na relativização dos conteúdos que acabam se configurando  na  idéia do “aprender a aprender”[3], que sustenta os PCNs da década de 90.
Portanto, as novas bases produtivas, firmadas na mundialização do capital, trazem para a educação uma nova demanda colocada sobre velhos interesses: articular a escola ao mercado globalizado. Quando assim faz, retira da escola sua função social que é o compromisso com o conteúdo escolar e com o acesso ao conhecimento sistematizado. No lugar, coloca a idéia do desenvolvimento de habilidades cognitivas como premissa para desenvolver “potencialidades individuais”, retirando a condição de sujeito social e, ‘culpabilizando’ estes mesmos sujeitos, agora singulares e responsáveis em sua particularidade pela inserção, seja ela de qualquer ordem.
Confere à escola, sem uma linearidade racional, a capacidade de articular conhecimentos ao e do mercado de trabalho, cujas características se expressam nas novas demandas organizacionais e tecnológicas, dando novo significado ao arranjo e dinâmica produtiva e, portanto, transferindo à sociedade e também à escola novas determinações e exigências.
Contudo, para além das demandas do capital, mas pelo próprio efeito dele, surge no contexto da educação temas sociais caros para as propostas mais progressistas em educação como cidadania, equidade, sustentabilidade, inclusão social  e democracia, cujos sentidos passam  a ser redimensionados pela lógica da competitividade. Ou seja, ao passo em que as relações  a partir das novas configurações do capital  se tornam mais competitivas e por consequência mais agravantes serão  os problemas sociais, econômicos e ambientais  cabe à escola, nesta perspectiva,   se reorganizar para reparar tais males.
Tem-se aí que a escola passou a ser responsabilizada em dar respostas à sociedade: se o desenvolvimento econômico impulsiona a produção e com isso a poluição ambiental, a escola poderia então transversalizar seu conteúdo com o tema meio ambiente ou mesmo realizar projetos com o fim de preservação ambiental; se a sociedade é excludente, a escola poderia trabalhar com valores como ética, cidadania, solidariedade humana , respeito e pluralidade cultural; se a competitividade econômica  exclui milhares de pessoas do processo produtivo e da vida social, a escola poderia desenvolver competências e habilidades genéricas que pudessem em tese capacitar o indivíduo para o mercado ou para a vida; se o desenvolvimento tecnológico trouxe  consigo a era da  informação ou do conhecimento, o papel da escola prescindiria tanto do conteúdo a ser ensinado como do próprio mediador desse processo.
Sem dúvida, com estas atribuições a escola serviria de cortina de fumaça para camuflar as reais condições estruturais sob as quais a sociedade e cada sujeito em si está condicionado. Portanto, agrava-se o fato de pensar que, pedagogicamente, a pedagogia de projetos é tomada como possibilidade de ensino, encobrindo a sistemática pontual que encerra em si mesma.
Cardoso (2007) situa a Pedagogia de Projetos no contexto do movimento da Escola Nova no Brasil oriundo das  bases norte americanas postuladas em Decroly e Kilpatrik, bem como da reforma espanhola, mais recentemente, com a influência  de Edgar Morin, César Coll e Fernando Hernandez. Ainda que contraditório, este movimento no  Brasil  está pontuado num processo de democratização da escola pública,  suscitado a partir das discussões do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova em 1932. Atualmente, a proposta se inscreve no contexto da reforma espanhola a partir de 1980 que procura desenvolver a idéia de um trabalho globalizador em detrimento ao currículo disciplinar. 
 A pedagogia de projetos acaba inscrita na idéia de que a partir de temas ou “situações problemas” (inter, multi ou polidisciplinar) os alunos são  levados a um processo de construção do conhecimento que acaba psicologizando a relação ensino e aprendizagem, ou seja a ênfase é colocada sobre “a estrutura cogniscitiva, no problema eixo que vincula as diferentes informações, as quais confluem num tema para facilitar seu estudo e compreensão por parte dos alunos” (HERNANDEZ (1998, p. 62).
Segundo Duarte (2001), a proposta de trabalhar em projetos secundariza o  próprio ato de ensinar à medida em que relativiza os conhecimentos, priviliegiando a construção individual dos mesmos.  Projetos acabam tendo começo, meio e fim. Neste sentido, os temas escolhidos acabam esgotando-se em si mesmos. Tem por conseguinte uma dimensão utilitária, pragmática e pontual pautada na resolução de problemas.  No entanto, no contexto da  sociedade dual e classista a qual vivemos, aprendemos e ensinamos, as questões sociais, ambientais e econômicas que se expressam na violência, na drogadição, na sexualidade, entre outras, não acabam assim  que acaba o projeto na escola e nem tampouco são resolvidas no âmbito curricular.  Segundo Cardoso (2007), portanto, a opção pelos projetos é absolutamente fragmentadora das relações pedagógicas, secundarizando o conteúdo elaborado, o papel do professor, bem como  afirmando o espontaneísmo das práticas escolares.
Assim, na esteira das reformas econômicas, passaram as reformas curriculares, fundamentadas na necessidade de se romper com a fragmentação dos conteúdos, no próprio currículo disciplinar,  na perspectiva dita “conteudista” do currículo e na lógica  do desenvolvimento  competências e habilidades cognitivas no lugar de ensinar conteúdos.

O modelo de organização curricular proposto pelos PCN, com base na pedagogia do             aprender a aprender, descentrou os conteúdos historicamente constituídos nas             disciplinas             escolares, por meio dos quais a escola trabalha com o conhecimento para dar destaque a             outros conteúdos, chamados por Sacristan (2000) de “nebulosos e pouco claros”.
A crítica à política de descentração dos conteúdos disciplinares sofre             constrangimentos             em conseqüência dos embates ocorridos entre as diferentes tendências pedagógicas no        século XX. Tais embates trouxeram para “[...] o discurso pedagógico moderno um certo             complexo de culpa ao tratar o tema dos conteúdos” (idem, p. 120). A discussão sobre             conteúdos curriculares passou a ser vista, por alguns, como uma defesa da escola como             agência reprodutora da cultura dominante. Contudo, sem conteúdo não há ensino,             qualquer projeto educativo acaba se concretizando na aspiração de conseguir alguns             efeitos nos sujeitos que se educam. Referindo-se estas afirmações ao tratamento científico             do ensino, pode-se dizer que sem formalizar os problemas relativos aos conteúdos não             existe discurso rigoroso nem científico sobre o ensino, porque estaríamos falando de uma             atividade vazia ou com significado à margem do para que serve (idem, p. 120) (SEED,         DEB, no prelo).

 No Paraná isto se tornou evidente a partir das políticas educacionais promovidas com os recursos do PROEM (Programa de Expansão Melhoria e  Inovação do Ensino Médio no Paraná) que vislumbrou, não somente a racionalização dos custos (enxugando as grades curriculares em nome da autonomia da aprendizagem e do aprender a aprender - como no caso dos PEC e  Pis, mais adiante explicados), como dos próprios  princípios pedagógicos, esvaziando a dinâmica social dos saberes e conteúdos necessários para compreensão crítica do mundo em nome do desenvolvimento das competências e habilidades.
O “aprender a aprender” foi defendido como a habilidade maior – de recuo da teoria que a escola deveria se  propor a desenvolver face às aceleradas mudanças ocorridas na sociedade.
Apoiada pelas políticas do contexto, não somente o conteúdo acabou sendo secundarizado, como o próprio conhecimento passou a ser relativizado. Isto se manifestou na  retração teórica afirmada pelo ecletismo de concepções, na descrença de toda e qualquer teoria e no  utilitarismo pós-moderno. A escola ou a sociedade de modo geral, passou a  experimentar  a compreensão dos elementos –chave da pós-modernidade.

            Neste sentido, segundo Fank (2007), a reorientação curricular  em especial, naquele contexto, (1998 – 2002) do Ensino de Segundo Grau e a capacitação dos professores trouxeram  para as escolas  propostas  que previam uma nova compreensão de currículo voltado para os “novos paradigmas” de educar para os “novos tempos”, a saber:
§          O saber fazer e o aprender a aprender, a despeito de “o que”  aprender  .
§          A interdisciplinaridade e a contextualização, como “recursos didático-pedagógico para o processo de construção de competências”.
§          A transposição didática como metodologia adequada à transformação do conhecimento (científico, técnico e artístico) em conhecimento escolar, ou até mesmo, em temáticas passíveis de serem re-significadas em forma de saber escolar.
§          A mudança de postura do docente – daquele que ensina e media o conhecimento para aquele que facilita o processo de aprender a aprender.
§         A construção individual do conhecimento a partir da pesquisa e da pedagogia de projetos ou Projetos Interdisciplinares (PIs).
Estas são algumas reflexões que  ilustram a forma como a pedagogia de projetos entrou nas escolas, bem como a forma como a própria escola absorveu algumas demandas do capitalismo, conforme análise feita,  a partir de projetos interdisciplinares e de temas transversais (pluralidade cultural, ética, cidadania, meio ambiente, sexualidade).
O reflexo deste movimento na escola acaba se expressando, segundo Cardoso (2007) na secundarização de sua especificidade. Isto pode se revelar numa  possível falta de fundamentos para se compreender que todos estes problemas devem ser analisados em sua totalidade, em sua concretude (elementos percebidos através do diagnóstico dos planos de ação das escolas de 2008). Nesta falta de referenciais quando se pensa em ações o que se apresenta é um conjunto de propostas que se configuram em temas ou projetos interdisciplinares, pontuais de caráter algumas vezes utilitarista, pragmático, fenomênico e, portanto, a-histórico.
Assim, na ânsia em poder enfrentar estes problemas que não são genuínos da escola, mas que incidem sobre ela,  a escola abarca para si mais demandas que, possivelmente, secundarizarão seu papel precípuo: o compromisso com a emancipação humana através da apropriação dos conhecimentos produzidos historicamente.

A forma de trabalho com projetos pontuais (como algo isolado do contexto curricular), projetos diversos para atender diversos interesses no lugar de promover uma visão de totalidade, tem como conseqüência uma espécie de redução de informações, cuja perspectiva nem de longe promove o desvelamento do que de fato está por trás destes problemas. (CARDOSO, 2007, p.77).

Isso implica em dizer que a forma de organização  social pautada na acumulação dos bens, na propriedade privada, na obtenção do lucro e, conseqüentemente, na reprodução das classes sociais, condiciona e tem condicionado o sentido da escola. Contudo, permite,ao mesmo tempo, à escola o movimento contraditório de formar sujeitos para além dessas determinações, o que equivale a dizer, formar sujeitos para além do conservadorismo e reprodução. Neste sentido, a escola que, historicamente, é o palco e alvo de disputa de interesses distintos, os quais, por sua vez, expressam a organização dual da nossa sociedade, própria da forma de organização econômica sob e no capitalismo tem a função precípua de tornar o homem cada vez mais capaz de conhecer os elementos de sua situação no mundo, para intervir nela transformando-a (SAVIANI, 1986).
Ocorre que a escola está e, ao mesmo tempo não está em crise, ela revela e esconde as relações de dominação, ela reproduz a ideologia do capital  bem como oferece condições de emancipação humana. Ao passo em que nela a disputa de interesses se manifesta, de forma mais ou menos contraditória, ela também manifesta e reproduz as relações sociais, políticas, econômicas e culturais. Portanto, a escola é o fruto destas múltiplas determinações.  
Por tudo isso é que afirmamos que qualquer projeto de educação passa  necessariamente a representar um projeto social,  movido por uma necessária intencionalidade. Portanto, compreendemos que a escola não é neutra. Ainda que não se pretenda  nela assumir uma ou outra postura política (entendendo o conceito de política não como  representações partidárias, mas como  uma ação movida por uma reflexão que pressupõe essa intencionalidade ) essa pseudo neutralidade traz consigo uma opção: conservar e reproduzir. Diante dessa não neutralidade só resta assumir um posicionamento que  é coletivo e parte das próprias relações pedagógicas inscritas no interior da escola, “que parta da prática social, para que ao compreendê-la para além de sua superficial aparência, possa se lutar pela sua transformação (CARDOSO, 2007, p.122).
O que se percebe é que, na esteira destas propostas ideológicas para a escola, tem-se a secundarização de sua especificidade e a  incompreensão sobre o próprio papel do conteúdo. É somente a partir da compreensão do conteúdo em sua totalidade e a partir  do necessário movimento dialético, que as questões apontadas como  “demandas” podem e devem ser discutidas. Para tal,  a primeira reflexão ou suporte necessário, seria pensar em que medida estas demandas  podem ou não passar pelo currículo e, neste sentido, convergem com a intencionalidade da escola, permitindo ou não a formação crítica dos sujeitos.
A idéia centraliza-se em uma pedagogia essencialmente voltada para o saber sistematizado, cujas elaborações se dão por determinações concretas, portanto, arraigadas de realidade. Deste modo, transversalizar temas da contemporaneidade e tratá-los em sua superficialidade em projetos também superficiais, significa reconhecer o conteúdo escolar de forma a-histórica e descontextualizada.
Ademais “se o conhecimento não supera o senso comum não é conhecimento; são suposições desagregadas que seduzem os trabalhadores [...] por se aproximarem de sua realidade mas o mantém subordinados aos desígnios do espontaneísmo. Esta educação é conservadora” (RAMOS, 2003 p. 11). 
Não há aqui, portanto, uma supervalorização da teoria, mas o entendimento que a consciência dos sujeitos se dá pela práxis, não como junção estanque da teoria e prática, mas como condição unitária de compreensão da realidade, em uma perspectiva de totalidade.
Assim, conforme Kosik (1976, p. 35)

Existe uma diferença fundamental entre a opinião dos que consideram a realidade como totalidade concreta, isto é,  como um todo estruturado em curso de desenvolvimento e de autocriação, e a posição dos que afirmam que o conhecimento humano pode ou não atingir a “totalidade” dos aspectos e dos fatos, isto é, das propriedades das coisas, das relações e dos processos da realidade. Como o conhecimento humano não pode jamais, por princípio, abranger todos os fatos – pois sempre é possível acrescentar fatos e aspectos ulteriores – a tese da concreticidade ou da totalidade é considerada uma mística. Na realidade, totalidade não significa todos os fatos. Totalidade significa: realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fato qualquer (classe de fatos, conjunto de fatos) pode vir a ser racionalmente e historicamente compreendido. (grifo nosso)


Deste modo, tratar os conteúdos curriculares em sua totalidade, significa compreendê-los como síntese de múltiplos fatos e determinações, como um todo estruturado, marcado pela disciplinaridade didática. Tratar os conteúdos em sua dimensão práxica é compreender que a atividade educativa é uma ação verdadeiramente humana e que requer consciência de uma finalidade em face a realidade, por meio dos conteúdos, impossibilitando o tratamento evasivo e fenomênico destes.
Assim sendo, o currículo reafirma sua intencionalidade no processo de seleção dos conteúdos. É por meio desta que se revela a concepção de currículo adotada pela escola e, conseqüentemente, pelo professor. Na opção por um currículo que trabalha com a totalidade de conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade citada acima, automaticamente há renúncia ao enfoque individualista e, portanto, fragmentado e superficial de tratamento ao conhecimento. Essa opção é feita tanto na seleção dos conteúdos, quanto no recorte e enfoque dado aos mesmos na prática escolar.

Entende-se que é preciso ultrapassar a idéia e a prática da divisão do objeto didático pelas   quais os conteúdos disciplinares são decididos e selecionados fora da escola, por outros             agentes sociais. Deve-se combater a idéia de que aos envolvidos no ambiente escolar,             sobretudo aos professores, caberia apenas refletir e decidir sobre as técnicas de ensino.
[...] A reflexão sobre a justificativa dos conteúdos é para os professores um motivo             exemplar para entender o papel que a escolaridade em geral cumpre num determinado             momento e, mais especificamente, a função do nível ou especialidade escolar na qual             trabalham. O que se ensina, sugere-se ou se obriga a aprender expressa valores e             funções que a escola difunde num contexto social e histórico concreto (SACRISTAN, 2000,   p. 150) (SEED, DEB, no prelo).

            A busca por uma educação de qualidade, na garantia de apropriação dos conhecimentos, leva-nos a refletir sobre o que entendemos por conhecimento escolar e de que forma a sistematização dos saberes é feita até a sala de aula. Segundo Moreira (2007, p. 22) “concebemos o conhecimento escolar como uma construção específica da esfera educativa, não como uma mera simplificação de conhecimentos produzidos fora da escola. Consideramos, ainda, que o conhecimento escolar tem características próprias que o distinguem de outras formas de conhecimento.” Vê-se aqui a preocupação com o resgate da função social da escola na apropriação dos conhecimentos sistematizados, não desconsiderando as demais instituições e espaços sociais como produtores de saberes, mas estes, não obrigatoriamente, serão reelaborados como saber escolar. Nesta perspectiva, a formação pretendida pela escola é segundo Ramos (2003) conquistada a medida que os estudantes identificam nela a relação orgânica com o dinamismo social que vivenciam, no sentido não de conservar sua condição de classe dominada, mas de transformá-la.
            Em síntese, a concepção de conhecimento escolar, bem como o reconhecimento de que a seleção dos conhecimentos situados em seu tempo e espaço histórico (não de forma neutra), terão certamente reflexo no processo de construção do projeto político-pedagógico – e, proposta pedagógica curricular - da escola. E como forma de reafirmar a busca por uma educação de qualidade, entende-se que uma “educação de qualidade requer a seleção de conhecimentos relevantes, que incentivem mudanças individuais e sociais, assim como formas de organização e de distribuição dos conhecimentos escolares que possibilitem sua apreensão e sua crítica (MOREIRA, 2007, p.21).
         Nesta perspectiva de currículo, conhecimento e conteúdo, é preciso situar que  alguns dos desafios educacionais contemporâneos postos à escola hoje, enquanto  marcos legais (exemplo: Lei 10639/03trata sobre obrigatoriedade do ensino da História e cultura afro brasileira e africana – Lei 11645/08, trata sobre obrigatoriedade do ensino da historia e cultura afro brasileira, africana  e indígena. ECA, Estatuto do Idoso, entre outros)  tem uma historicidade ligada ao papel e à cobrança da sociedade civil organizada, em especial  dos movimento sociais.  Esta pressão histórica da sociedade na condução destas discussões  também resulta em acordos internacionais firmados pelos países signatários, a exemplo do acordo  Conferência Mundial de combate ao racismo, discriminação racial, xenofobia e discriminações correlatas. (2001). Esta historicidade ajuda compreender por que  algumas demandas ganham força de lei e outras não.
             Segundo Frigotto (1993), a produção do conhecimento e sua socialização para determinados grupos ou classes não é alheio ao conjunto de práticas e relações que produzem num determinado tempo ou espaço. Isto significa dizer que ao se abordar o conteúdo da disciplina – recorte histórico, político e cultural do conhecimento  (que por sua vez já trouxe consigo uma intencionalidade) é preciso analisá-lo em suas múltiplas determinações. Mesmo delimitado, o conhecimento não perde o tecido da totalidade. É na categoria totalidade – condição de compreensão do conhecimento nas suas determinações  que se as questões sociais, ambientais, econômicas, políticas e culturais  podem e devem ser tratadas. Nesta perspectiva,  os “desafios educacionais” no currículo deve pressupor ser parte desta totalidade. Portanto eles não podem se impor à disciplina numa relação artificial e arbitrária,  devem  ser “chamados” pelo conteúdo da disciplina em seu contexto e não o contrário transversalizando-o ou secundarizando-o.
            É necessário admitir, conforme Frigotto (idem),   que o conhecimento em sua totalidade não se efetiva se não formos capazes de buscar ir para além da aparência, da  fragmentação, e do plano fenomênico – heranças do empiricismo e do positivismo. O conhecimento é produto da realidade social, objetiva  e concreta - historicamente condicionada. Portanto, os chamados “Desafios educacionais contemporâneos” devem passar pelo currículo somente como condição de compreensão do conteúdo nesta totalidade, fazendo parte da intencionalidade do recorte do conhecimento na disciplina. isto significa compreendê-los como parte da realidade concreta e explicitá-la nas múltiplas determinações  que produzem e explicam os fatos sociais.
            Segundo KOSIK (1976, p. 15)

O mundo da pseudoconcreticidade é um claro-escuro de verdade e engano. o fenômeno indica a essência e, ao mesmo tempo o esconde. A essência se manifesta no fenômeno mas só de modo inadequado , parcial ou apenas sob certos ângulos e aspectos. O  fenômeno indica algo que não é ele mesmo e vive apenas graças ao seu contrário. A essência não se dá imediatamente , é mediata ao fenômeno e portanto se manifesta em algo diferente daquilo que é.  [...] A manifestação da essência é precisamente a atividade do fenômeno.

            A partir da  análise de Kosik se pretende dizer que  compreender o conhecimento em sua totalidade implica em ir para além  da aparência e da pseudoconcreticidade. Significa fazer um detour sobre os fatos históricos, sociais, políticos, culturais  e econômicos,  não de forma imediata mas dialética. Os desafios educacionais contemporâneos, além de  pressupor um outro olhar (não na perspectiva ingênua e linear que encobre os fatos históricos em  favor da perspectiva do dominador como tradicionalmente foram tratados os conteúdos,  mas do conhecimento concreto da realidade histórica)  sobre as questões sociais, culturais, ambientais e históricas, devem ser trabalhados na disciplina os quais se contextualizam, como condição deste detour, como condição de compreensão do conhecimento em suas múltiplas manifestações. Isto não significa, portanto, abarcar toda produção histórica, social ou cultural sobre  o conhecimento  do conteúdo disciplinar, nem tampouco idealizar soluções mágicas para resolvê-los no âmbito da escola, mas em primeiro, conhecer a especificidadade  de cada uma das demandas desses “Desafios” para, segundo,  delimitar esse conhecimento  em suas dimensões concretas, compreendendo os fatores que os  condicionam  – interpretando os  seus “porquês”  em sua totalidade.      
             Numa perspectiva histórica,  para o entendimento destas discussões em sua totalidade,  é preciso, em primeiro lugar, que o professor busque outros  referenciais que possibilitem uma outra representação sobre os fatos e sobre o passado.  É importante perceber, segundo Savoia  (2008) que na impossibilidade de resgatar o passado tal como foi, construímos sempre em relação a ele, uma representação. As representações geram praticas e estas, por sua vez, perpetuam ou criam novas representações. Assim, se construímos representações do passado, de nossa história eivadas de estereótipos em relação ao povo negro, indígena, cigano, entre outros, estamos contribuindo para fomentar práticas de preconceito, discriminação e racismo em nossa sociedade.
            Estes e outros olhares sobre os fatos e sobre a história nos indicam que as questões sociais, econômicas, raciais, ambientais, embora não sejam  genuínas da escola,  nela se apresentam como desafios que pressupõe, sobretudo, uma outra compreensão  para além da visão idealista ou estereotipada sobre os fatos e sobre a história.
             Isso sugere que a percepção sobre o currículo se amplie para além das propostas curriculares. Equivale a dizer que,  embora seja insuficiente tratar tais desafios a partir da organização do conteúdo tal como vem sendo posto, não se pode negligenciar na escola  o enfrentamento aos  mesmos. Não se pode negar que  tais situações estão preementes  o que a conduz a um claro paradoxo:  não secundarizar sua função  social na socialização do conteúdo historicamente produzido pelo conjunto da humanidade e  não negar situações postas pelo  cotidiano, as quais a escola  tem que fazer enfrentamentos. É nesta contradição que, além de retomar a análise já realizada sobre o conteúdo em sua totalidade, se situa o papel do coletivo escolar diante da discussão do seu projeto de escola pública.
             De certa forma, é preciso  que, num primeiro momento, o coletivo escolar busque os   referenciais teóricos necessários para fundamentar esta discussão ( como  por exemplo os cadernos temáticos, a biblioteca do professor, TV Paulo Freire) para que, num segundo momento, a escola possa vislumbrar no seu Projeto Político Pedagógico  os suportes institucionais ou não, necessários para instrumentalizá-la sobre  como agir diante de situações concretas que se põe no cotidiano (ex. a questão da violência, da sexualidade, do uso de drogas).  A busca destes suportes, portanto,não prescinde de uma fundamentação clara  sobre a natureza dos “problemas “ que se põe no cotidiano, até mesmo para que a escola não caia no afã de voluntarismos de práticas pontuais, pragmáticas, psicologizantes  e espontaneistas.      
            Embora do ponto de vista das contradições próprias do capitalismo contemporâneo as medidas que a escola busque talvez  sejam paleativas, a discussão sobre elas deve ocorrer a fim de possibilitá-la  procurar os suportes já existentes  e aqueles que  ainda precisam ser construídos inclusive do ponto de vista das políticas públicas.
            Há de se ter clareza, portanto,  de que a escola  não dá conta de tudo, mas de forma consciente e fundamentada pode e deve fazer o exercício de discutir sobre estes desafios, entendendo-os na mesma perspectiva do conteúdo escolar: na perspectiva da historicidade, da concreticidade e da totalidade, indo para além de representações ingênuas,  idealistas e estereotipadas da realidade.
            Em síntese, tanto os conhecimentos universais como os desafios do cotidiano podem e devem ser discutidos  como expressões históricas, políticas e econômicas da realidade. Tornam-se  parte  do conteúdo e, portanto,  da proposta pedagógica curricular quando e se inerentes à compreensão dos mesmos na totalidade e são  desafios  do cotidiano que conduzem o coletivo escolar a buscar os fundamentos conceituais  sobre os mesmos, entendo-os nas dimensões históricas, sociais, políticas  e econômicas, suscitando a busca por suportes concretos dada a compreensão dos mesmos em sua concretude.
            Estas são as necessárias discussões, a serem feitas na escola, para que o currículo possa expressar o projeto de educação e de sociedade que se almeja e neste sentido a intencionalidade do trabalho com o conhecimento na disciplina. Esta análise também é necessária para que se retome na escola a análise da Proposta Pedagógica Curricular -  expressão desta intenção no Projeto da escola pública em sua função social.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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[1]    Texto elaborado e organizado por Ana Carolina Soares Duarte, Elisane Fank e Paulla Helena   Silva de Carvalho,  da  Coordenação de Gestão Escolar CGE/SEED para a Semana Pedagógica Descentralizada nas escolas/julho de 2008.
[2]     A reestruturação produtiva foi o movimento de reorganização do modelo de produção, dado especialmente em meados da década de 80, afirmando-se na década de 90, no processo de internacionalização do capital e readequação dos modelos de base rígida nos moldes do Toyotismo.
[3]     O aprender a aprender reside na compreensão que as aprendizagens que o “individuo realiza sozinho são mais desejáveis do que aquelas que ele realiza por meio da transmissão de conhecimentos por outras pessoas [...] Trata-se da idéia de que é mais importante o aluno desenvolver um método de aquisição, elaboração, descoberta, construção de conhecimentos do que aprender os conhecimentos que foram descobertos e elaborados por outras pessoas” (Duarte, 2001, p.35).

ARTIGO - EDUCAÇÃO EM TEMPO INTEGRAL - ELISANE FANK - 2010

ESCOLA EM TEMPO INTEGRAL E A EDUCAÇÃO INTEGRAL: ALGUMAS
REFLEXÕES DE CONTEXTO E DE CONCEPÇÃO
Elisane Fank1
Resumo
Este artigo expressa uma análise histórica e pedagógica que configura as políticas em educação em tempo integral. É necessário destacar que o estudo expressa as bases conceituais e pesquisas de diversos autores e a empiria de alguns municípios e suas políticas sobre o tema em questão. Acerca da concepção, este estudo tem o objetivo de refletir não somente a dimensão política da escola integral, mas sua convergência sobre a
organização curricular que concebe a escola integral na perspectiva da educação integral.
Neste sentido, a integralidade se converte na base conceitual e pedagógica que define o currículo numa perspectiva de educação de bases societárias. Esta base marca a história da educação integral, que ao se consubstanciar na ampliação da jornada de estudos não pode secundarizar o papel do estado no provimento de políticas que possibilitem as condições concretas para a ampliação do tempo e do espaço escolar, bem como da própria escola e do conhecimento na definição de um projeto pedagógico que se configure no currículo integrado. Isto pressupõe ir para além de políticas assistenciais e compensatórias que prevêem atividades fragmentadas que dualizam o tempo e o espaço escolar.
Palavras chaves: Educação integral. Escola em tempo integral. Políticas assistencialistas. Contraturno. Currículo integrado.

INTRODUÇÃO

A proposta de implementação de escola em tempo integral esteve e tem estado nos planos de governo de quase todos os candidatos, seja na política majoritária ou não. Ocorre que, ao se tomar as falas dos vários candidatos, uma carga de assistencialismo acompanha os motivos pelos quais se defende a ampliação da jornada de estudos dos nossos alunos da escola pública. Isto significa que ao se conceber a escola em tempo
integral, como bandeira que figura os discursos políticos, parte dos argumentos redundam em privações econômicas e sociais voltadas a “tirar os jovens e crianças das ruas”. É certo que a própria história da escola integral acusa este caráter compensatório; contudo, se tomarmos na sua gênese, a análise possível de ser feita é de um conteúdo essencialmente político e pedagógico que denota, para além da concepção da escola em
tempo integral, uma concepção de educação integral.
Uma vez tendo clara a idéia de que a escola em tempo integral não se expressa na compensação das contradições e dos males sociais, alguns questionamentos ainda se impõem ante à necessidade de situar a que escola integral estamos nos referindo: afinal, a educação integral implica na educação em tempo integral? Seria possível termos uma escola em tempo integral sem uma concepção de educação integral? Em que medida uma escola de tempo integral pode ir para além do contraturno, no que um e outro diferem? É possível conceber a educação integral sem a ampliação da carga horária? Existe diferença entre escola em tempo integral e aluno em tempo integral? Qual a compreensão se tem do papel da integração curricular? Quais as expectativas de pais e professores acerca do papel da escola em tempo integral? Enfim, qual o papel da comunidade e das políticas públicas? Em que medida também podemos dizer que a proposta do governo federal intitulada “Mais Educação” se caracteriza numa concepção de educação integral, de
escola em tempo integral ou pode incorrer em mais uma política de contraturno? Neste sentido, e para refletir estes questionamentos, este estudo tem por objetivo possibilitar uma análise sobre alguns fundamentos históricos que caracterizam esta concepção de educação integral. Isto significa dizer que, antes de falar sobre a ampliação da jornada ou do tempo de estada na escola, é preciso se conceber os fundamentos conceituais e epistemológicos que denotam a diferença entre escola e educação integral.
Este artigo se justifica, então, pelo fato de que as políticas, em geral, têm se definido pelas possibilidades estruturais de implementação ou mesmo para atender uma demanda de deputados, prefeitos, bem como até a própria campanha eleitoreira, cuja expectativa se converterá em bandeiras políticas. No entanto, se fosse possível imaginar as condições estruturais pensadas para sua efetivação, antes de apenas ampliar a jornada, caberia aos propositores, juntamente com a escola e a comunidade que a concebe, planejar um projeto pedagógico numa concepção de integralidade. Isto perpassa o currículo e a gestão. Significa dizer que antes de se pensar na estrutura física, ou seja, no prédio escolar, é necessário se conceber o projeto pedagógico.
Neste sentido é possível, a priori, destacar que não há ação que não esteja movida por uma intencionalidade. O currículo da escola em tempo integral é inerente ao seu projeto, o qual deve avançar sobre as defesas eleitoreiras que se reduzem a políticas assistencialistas e compensatórias.


1  A HISTÓRIA E A POLÍTICA NA PERSPECTIVA DA (NÃO) INTEGRALIDADE




As políticas educacionais no Brasil, em geral as que foram definidas na década de 1980 e 1990, marcaram a história da educação brasileira com programas de extensão da jornada escolar. Na experiência brasileira, segundo Arco-Verde (2003, p.361), temos um esforço de “unir, pelo espaço da escola, ações de diferentes áreas de atendimento à criança, buscando, pela prevenção e intervenção direta a assistência à infância”. Ocorre que, ao passo em que tais políticas se converteram em ações que, muitas vezes, segundo Saviani (1987), acabaram se constituindo em políticas “pobres para os pobres”. Isto significa dizer que, em nome de retirar as crianças das ruas ou mesmo lhes oferecer, a partir da escola, um atendimento às suas necessidades básicas, o fazem em detrimento da escolarização necessária para sua formação humana. Destaca-se aqui uma
visão essencialmente assistencialista e compensatória, não somente sobre a educação em tempo integral, mas sobre a própria escola. A este respeito, Arco-Verde (2003) destaca que é importante não se confundir
escola em tempo integral com centros de tempo integral. Em alguma medida, alguns centros podem ser ilustrados através de experiências pontuais como os PROFICs em São Paulo, os CIEPs no Rio de Janeiro ou, mesmo em Curitiba, com os CEIs. O que se tem é a centralidade em obras arquitetônicas arrojadas em detrimento de uma proposta pedagógica que marque uma concepção de educação integral. Por outro lado, ao promover a extensão do tempo escolar, a ETI (Escola em Tempo Integral) possibilita o acesso a um conjunto de atividades que contribuem para que a aprendizagem ocorra de forma enriquecida, aprofundada, não se limitando e nem mesmo se consubstanciando em uma ação assistencialista e compensatória.
Com o objetivo de fundamentar estes questionamentos, destacam-se as reflexões de Paro (2009) acerca da luta que se faz para que as escolas em tempo integral, ou seja, da educação em tempo integral se constituam em uma educação integral. Esta reflexão nos permite questionar que tipo de educação queremos
estender: a que reproduz a exclusão, a minimização de políticas públicas, o assistencialismo, a violência, o enclausuramento? Será que queremos mesmo estender a educação que aí está ou precisaríamos fazer uma outra educação estendida?
A educação pode ser concebida como integral na medida em que, a partir da escola, o sujeito histórico ao mesmo tempo em que cria, se apropria do que foi criado por ele e pelo conjunto dos homens na sua condição histórica. Assim, ela não se constitui em treinamento - seja na perspectiva do trabalho mental ou físico. A educação integral é em si humanizadora. Isto pressupõe também oferecer possibilidades para que, a partir dela, o sujeito se aproprie da cultura, da arte, da história e do próprio conhecimento, tomado
este de forma diversificada, teoricizada, praticada, vivida e experienciada. Antes de se pensar em estender o tempo da escola, é preciso, portanto, situar que não somente a escola é de tempo integral, mas trata-se de uma educação integral. Recorrendo a Moraes (2009, p.21), tem–se que a “Educação integral forma
pessoas íntegras”. Integral significa inteiro, completo, total. Em latim, integrum significa íntegro, sincero, são, puro, não corrupto, sóbrio, sem senão.
As primeiras iniciativas de educação integral, segundo o autor, referem-se às bases societárias da década de 1820, representadas, dentre outros autores, por Robert Owen (1771 – 1858), Wilian Godwin (1723 – 1772) e Francisco Ferrer (1859 – 1901). Em Owen (Apud MORAES, 2009), podemos ver uma aproximação da educação com atividades manuais voltadas para a formação mais completa da criança, a partir da qual se pretendia uma relação intrínseca entre o trabalho e a educação. Pelas relações de trabalho se produzia um conhecimento necessário para o desenvolvimento da autonomia, como condição para a criação de uma sociedade igualitária, que expressasse a igualdade entre homem e mulher, bem como uma formação humana sem nenhum caráter de repressão. O trabalho era, então, concebido como parte fundamental do processo educativo, da formação individual e intelectual.
A base societária da educação integral influenciou o pensamento libertário no século XIX, expressada também pelos anarquistas Fourrier, Proudhon, Robin e Bakunin, os quais desconfiavam da educação oferecida aos filhos dos trabalhadores, tanto por parte do estado como da igreja. Era preciso, segundo Proudhon (Apud MORAES, 2009, p.26), dotar os operários com uma capacidade profissional completa que combinasse a formação intelectual e manual (numa interpretação atual, com atividades teóricas e
práticas). Uma vez apropriados do conhecimento de forma integral, os trabalhadores teriam condições de se libertarem do mando e da tutela a que estavam submetidos. Esta concepção se configura numa formação para a politecnia, o que corresponde a uma formação por inteiro, numa união indissolúvel entre arte, literatura, ciência, prática, teoria, trabalho e estudo. Portanto, a formação politécnica e a educação integral encontram na pedagogia do trabalho e na filosofia o seu maior fundamento. (CODELLO, apud MORAES, 2009, p.26).
Em suma, a concepção de educação integral, tomada em sua essência, é emancipadora, libertadora e humanizadora, na medida em que não separa o fazer do pensar ou mesmo a atividade física da intelectual.
No Brasil, a base política, social, econômica e pedagógica, embora não voltada para os mesmos fundamentos societários, encontra terreno no contexto da década de 1930, expressada no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932. Economicamente, a fase de 30 representa o “declínio das oligarquias cafeeiras” em decorrência das modificações na estrutura econômica. Segundo Ribeiro (1992), esta outra
configuração econômica e política é representada pelo crescimento significativo dos estabelecimentos industriais, pelo aumento do capital e, consequentemente, pelo aumento do trabalho operário. Ocorre que o espaço deixado pela produção agroexportadora demarca uma outra forma de organização econômica e social, criando um contingente de força de trabalho na base econômica industrial. Ou seja, uma outra forma
hegemônica se configura dando poder governamental aos militares, aos tecnocratas e aos empresários industriais. Diante do cenário político e econômico a educação aparece como necessidade para todos e como via para a verdadeira formação do homem brasileiro, assimilando aos poucos o modelo norteamericano de métodos ativos de construção do conhecimento. A Escola Nova expressou uma educação de novo tipo, que pudesse estar voltada para a formação de um sujeito ativo, que estivesse na centralidade do processo. O escolanovismo, representado pelos liberais ou profissionais da educação e expressado no “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova” (1932), significou a renovação das bases
pedagógicas e a reformulação das políticas educacionais. Contraditoriamente, ao passo em que, em alguma medida, o Manifesto procurou adequar a formação do sujeito para a adaptação às demandas do setor industrial, trouxe para o Brasil princípios que fundamentaram uma concepção de escola pública baseada na gratuidade, na universalização e na laicização.
No interior do Manifesto, Anísio Teixeira defendia uma escola democrática, que deveria conter os males educacionais produzidos pela educação elitista do capitalismo; defendia a educação como instrumento de reconstrução nacional, de forma que sua oferta deveria ser pública, obrigatória e laica. Voltado para os métodos ativos de aprendizado e para idéia de colocar o aluno na centralidade do processo, Anísio defendeu uma escola em tempo integral.
Nesta época, Anísio Teixeira criou o Centro Popular de Educação Carneiro Ribeiro, denominado de Escola-Parque, no Bairro da Liberdade, em Salvador. O princípio da universalização do acesso, naquele momento, estava voltado para garantir algumas condições básicas para que a criança pudesse estar na escola, cuidando de sua alimentação, higiene, socialização e preparação para o trabalho e cidadania.
Conforme Santos (2004): A escola primária, visando, acima de tudo, a formação de hábitos de trabalho, de convivência social, de reflexão intelectual, de gostos e de consciência, não pode limitar as suas atividades a menos que o dia completo. Devem e precisam ser de tempo integral para os alunos e servidas por professores de tempo integral. (p. 108). Assim sendo, Anísio (1959) também afirma que a escola de educação integral deve: (...) dar-lhe seu programa completo de leitura, aritmética e escrita, e mais ciências físicas e sociais, e mais artes industriais, desenho, música, dança e educação física. Além disso, desejamos que a escola eduque, forme hábitos, forme atitudes, cultive aspirações, prepare, realmente, a criança para a sua civilização – esta civilização tão difícil por ser uma civilização técnica e industrial e ainda mais difícil e complexa por estar em mutação permanente. E, além disso, desejamos que a escola dê saúde e alimento à criança, visto não ser possível educá-la no grau de desnutrição e abandono em que vive (p. 79) (SANTOS, 2004).
É importante destacar que foi neste contraditório contexto que o Manifesto dos Pioneiros se dividiu entre promover o desenvolvimento econômico do país, via educação e, por outro lado, promover a emancipação do trabalhador, num meio privado das condições econômicas e sociais que pudessem incluir, efetivamente, o filho do trabalhador na escola. Este viés, embora tenha trazido consigo uma necessidade compensatória, naquele momento histórico, vislumbrou que se ampliasse o destino dos recursos públicos para a escola pública, com a intenção de ampliar o papel do estado na garantia do acesso à educação. Embora a educação em tempo integral nunca tenha saído dos debates nacionais, vale destacar que ao final de 2007, e ao longo do primeiro semestre de 2008, ela se propala nos discursos oficiais do MEC (Ministério da Educação e Cultura). Para tanto, foi realizado um amplo estudo, coordenado pela SECAD (Secretaria de Educação
Continuada, Alfabetização e Diversidade), por intermédio da Diretoria de Educação Integral, Direitos Humanos e Cidadania. Este debate reuniu representantes da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME), do Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED), da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), da Associação Nacional pela Formação de Profissionais da Educação (ANFOPE) e professores universitários. Tal estudo resultou em referências para a
fundamentação do Programa Mais Educação. A característica principal do Programa é a intersetorialidade da gestão pública na ampliação, não somente da jornada escolar, ou seja do tempo, como também do espaço escolar, na oferta das atividades de contraturno. Embora tenha, o Mais Educação, uma possibilidade de ampliar tempo e espaço de aprendizagem, através de atividades lúdicas, esportivas, pedagógicas, artísticas,
ambientais, entre outras, o objetivo central é o de diminuir as desigualdades educacionais.
Para tanto, o critério de adoção do Programa nas escolas públicas visa atender, em especial, Estudantes que estão em situações de risco, vulnerabilidade social e sem assistência; estudantes em defasagem série/idade; estudantes das séries finais da 1ª fase do ensino fundamental (4º / 5º anos), nas quais há uma maior evasão na transição para a 2ª fase; estudantes das séries finais da 2ª fase do ensino fundamental (8 e/ou 9 anos), nas quais há um alto índice de abandono; estudantes de séries onde são detectados índices de evasão e/ou repetência. (MEC, 2008)
Ainda que, propriamente, o Programa Mais Educação não se caracterize pela integração curricular, ele expressa, em âmbito federal, a tentativa mais elaborada de integrar vários setores, secretarias e ministérios em uma ação voltada para a ampliação da jornada e na oferta de atividades organizadas em macrocampos que vão para além do currículo escolar, tais como Acompanhamento Pedagógico, Meio Ambiente, Esporte e
Lazer, Diretos Humanos em Educação, Cultura e Artes, Cultura Digital, Promoção da Saúde, Educomunicação, Investigação no Campo das Ciências da Natureza e Educação Econômica.
Ocorre, contudo, que o Programa, ao pressupor atividades e oficinas em tempos e atendimentos próprios, não expressa em sua totalidade a integração com o currículo escolar. Em alguma medida, acaba se convertendo num projeto de contraturno que pode correr o risco de assumir um viés assistencialista pela demanda a que se destina atender e pela insuficiência na integração das atividades ao currículo escolar.
O que se tem é que muitas experiências em torno da Educação em Tempo Integral
(ETI) se expressam não somente na forma de concebê-la, seja numa dimensão mais ou
menos compensatória, assistencialista ou pedagógica, como, em especial, na forma de
gerir o próprio sistema e o currículo escolar. O que se tem é que a intenção de se levantar
uma bandeira em torno da defesa da educação em tempo integral não pode expressar
intenções políticas fragmentadas e descoladas de um projeto pedagógico mais amplo. É
neste sentido que, ao se discutir Tempo Integral, é necessário caminhar para adiante da
concepção assistencialista, que se reduz a tirar a criança e o jovem da rua e dos riscos
resultantes de um sistema político e econômico contraditório e meritocrático. É preciso
conceber a extensão do tempo e do espaço integrada ao currículo, à formação
profissional adequada, à política de contratação de profissionais e à própria gestão do
sistema.
Compreender a concepção de Educação em tempo integral, portanto, na
perspectiva da educação integral, pressupõe compreender a própria concepção de
currículo e a formação do sujeito de forma integral, então omnilateral2. O termo currículo,
do latim curriculum, significa pista de corrida, ou seja, caminho, trajetória a percorrer. Este
caminho expressa, sobretudo, um projeto pedagógico, o qual, por sua vez, revela um
projeto social. Isto significa dizer que o currículo não pode ser concebido como um rol de
disciplinas organizadas de forma linear no tempo já culturalmente definido em função de
horas-aula. Por outro lado, ele não pode ser tomado como se fosse um objeto per si. O
currículo não tem vida própria, ele não é a expressão dele mesmo. Ele revela, então, um
projeto de realidade, de mundo, de homem e de educação. Nele se manifesta a
concepção que se define a partir da intencionalidade histórica e social sobre a escola. O
currículo integrado, por sua vez, se caracteriza exatamente pela integração de todas as
2 Para Marx e Gramsci, a omnilateralidade não é o desenvolvimento de potencialidades humanas inatas.
É a criação dessas potencialidades pelo próprio homem, na prática social, no “Mundo do Trabalho”. Nessa
perspectiva, a educação está vinculada à produção social total, bem como a todas as dimensões da
existência e da ação humanas. [...] o chegar histórico do homem a uma totalidade de capacidades e, ao
mesmo tempo de gozo (desfrute, fruição), em que se deve considerar sobretudo o usufruir os bens
espirituais, além dos materiais de que o trabalhador tem estado excluído em conseqüência da divisão do
trabalho. (MANACORDA, apud GADOTTI, 1984)
atividades oferecidas para a série, etapa, fase ou nível, de forma a não segmentá-las ou
desarticulá-las entre si. Não se trata, portanto, de oferecer um tempo de disciplinas
acadêmicas ou formais e outro de oficinas e atividades lúdicas, que geralmente se
consubstanciam em trabalhos manuais e artísticos.
Destaca-se, por sua vez, que as experiências em torno dos centros de educação
integral, tais como os CEIs, PROFICs ou CIEPs, foram insuficientes para representar uma
concepção política e pedagógica sobre a escola integral. Em grande medida expressaram
políticas governamentais manifestas na secundarização do papel do estado sobre a
definição das políticas e dos recursos públicos necessários para equipar a escola de
condições estruturais para o atendimento desta demanda.
Estas análises foram também evidenciadas por Arco-Verde (2003) em seu trabalho
de doutoramento, a qual destaca que, na ausência de políticas adequadas surgem
medidas paliativas como trabalhos de parcerias com empresas privadas, terceirização de
serviços de profissionais contratados para atividades pontuais e desarticuladas do
currículo, mobilização comunitária ou incentivo de trabalhos ao voluntariado. Nem sempre
medidas que apresentam êxito, especialmente porque estas propostas sofrem do mal da
descontinuidade.
Assim sendo, temos que a secundarização do papel do estado, historicamente, se
expressou numa política de privatização, terceirização e filantropia, que permitiu que a
escola fosse tomada por projetos das iniciativas privadas. A escola foi incentivada a
aplicar um conjunto de projetos propostos por empresas, bancos ou mercados, que em
nada responderiam às necessidades dos filhos dos trabalhadores, conforme imaginou
Anísio Teixeira na defesa pela democratização da escola pública.
Em pesquisa realizada no município de Curitiba acerca da análise dos Centros de
Educação Integral, Arco-Verde (2003) constata que “na falta de recursos de capacitação
e de um projeto pedagógico indicado pela SME – Secretaria Municipal de Educação -
cada escola passou a buscar parcerias para garantir a manutenção de atividades.” Em
sua análise destaca que esta situação acompanha um novo movimento da política
neoliberal, no qual empresas, instituições e organismos governamentais, ou não,
apresentam seus projetos para serem desenvolvidos na escola, com diferentes formas e
propostas pedagógicas, quando existentes, bem como a participação de pessoas leigas
para ações voluntárias de diferentes atividades para as crianças na escola. Vale ressaltar
que esta situação precisa ser revertida num processo de reflexão crítica e madura da
escola, que passou a simplesmente aceitar e incorporar as propostas de atividades de
terceiros, sem um aprofundamento teórico sobre os fins a que se destinam e dos
interesses dos parceiros envolvidos no projetos. A falta de recursos e de profissionais nas
escolas empurra a instituição aos riscos de aceitar meios que são justificados pelos fins.
(ARCO-VERDE, 2003)
Para tanto, no limite do que for possível, a escola integral, em tempo integral - a
que concebe o aluno integral em tempo integral - historicamente, deve pressupor
políticas que prevejam não somente as condições estruturais para ampliação do tempo
em função do projeto pedagógico, mas, sobretudo, a profissionalização. Neste sentido, a
proposta da escola não pode ficar à mercê dos que prestam serviços voluntários, do
espontaneísmo, da desprofissionalização. Deve estar circunstanciada pelos objetivos
pedagógicos que integrem todas as atividades curriculares, e isto significa profissionais da
educação que participem do planejamento das atividades e, de forma mais ampla, na
elaboração do projeto pedagógico da escola.

2 - O CURRÍCULO E A CONCEPÇÃO NA PERSPECTIVA DA INTEGRALIDADE

Ainda que as experiências com a escola integral situem-se nas contradições entre
os vieses essencialmente pedagógico e assistencialista, hoje, uma vez entendido o papel
do estado no provimento das políticas, à escola fica assegurado seu compromisso com o
conhecimento que permita produzir, criar, aprender e vivenciar.
Ocorre que essa formação, posta na relação educação e trabalho pode ser, de fato,
insuficiente em quatro horas de aula. Isto implica em dizer que a educação em si deve ser
integral, mas a extensão do tempo lhe possibilita uma forma mais articulada, ou melhor
integrada, haja vista a concepção de currículo em que se defende a relação tempoespaço,
produção-fruição, conhecimento-trabalho, prática–teoria, pensar–fazer e corpomente.
Almeja-se, conforme Paro (2009), “uma escola à qual se vai pretensamente para
aprender matemática, geografia, ciências, mas também para aprender a dançar, brincar,
cantar, amar, discutir política e ser companheiro”. (PARO, 2009, p. 19)
Assim, a concepção de educação integral em tempo integral não pode se
consubstanciar em contraturno. É um mesmo aluno que está na escola oito ou nove
horas por dia. Este processo não pode se dividir em dois períodos – período da base
comum ou das disciplinas acadêmicas e o período das oficinas - que facilmente podem
ser distinguidos por serem ou não agradáveis.
Portanto, é importante destacar que antes do tempo ser estendido, o aluno é
integral. Ele deve estar essencialmente envolvido em atividades absolutamente
integradas ao currículo, que lhe permita a formação humana plena, ou seja, numa
dimensão “omnilateral”.
A integralidade é tomada aqui como possibilidade de desenvolvimento dos
aspectos afetivo, cognitivo, físico e social, sem hierarquias. Não existe, neste sentido,
uma relação de maior ou menor importância sobre as atividades que se propõem e dos
conhecimentos que se ensinam. A extensão do tempo escolar diário permite que se
vislumbre o reconhecimento da pessoa como um todo - e não como um ser fragmentado
entre corpo e intelecto - em atividades que envolvam a multiplicidade de aspectos para
benefício do desenvolvimento - tempo para adquirir hábitos, valores, conhecimentos.
Neste sentido, há dois destaques ainda a serem feitos: o papel do projeto da escola
e o papel da comunidade escolar.
O projeto pedagógico da escola não pode ser construído para a comunidade e sim
com o coletivo escolar, para o qual a concepção de educação reafirma as necessidades
históricas do filho do trabalhador, qual seja: o acesso ao conhecimento universal,
sistematizado e produzido pelo coletivo da e para a humanidade. A extensão do tempo
escolar diário deve estar voltado para esta concepção, na medida em que vislumbre o
reconhecimento da pessoa como um todo e não como um ser fragmentado entre corpo e
intelecto. Deste modo, a integralidade deve pressupor o desenvolvimento de todos os
aspectos da condição humana.
Isto significa, sobretudo, que a escola em tempo integral pressupõe professor em
tempo integral, através do qual o aluno não seja o único elo integrador dos docentes. É o
trabalho coletivo, e não somente a prática do professor e as expectativas do aluno, que
define a proposta pedagógica, a organização interna, a distribuição do tempo, o uso do
espaço e a prática pedagógica. Portanto, é o projeto pedagógico que define as atividades
que serão oferecidas e não a identidade do professor, ou seja, não é o professor que
escolhe as atividades definidas na extensão curricular e na ampliação da jornada, mas a
proposta pedagógica.
No que se refere à gestão, destaca-se a importância de que todos os envolvidos no
processo educativo (profissionais da educação, alunos e pais) entendam a concepção e a
defendam, no sentido da clareza de que a escola não objetivará tirar os filhos das ruas
com atividades de entretenimento. É preciso salientar que tirar a criança da rua pode ser
uma conseqüência, mas não um objetivo, o que poderia redundar numa proposta de
enclausuramento.
Portanto, currículo na perspetiva da integração das atividades, do tempo, dos
objetivos, do espaço, deve estar em consonância com um projeto pedagógico, não
secundarizado por prédios arquitetônicos, mas voltado para as expectativas de todo o
coletivo e comunidade escolar. Ou seja, antes de se definir, no âmbito das políticas,
critérios de implementação da proposta, é necessário estar em consonância com a
comunidade. Não se concebe a integração curricular desarticulada com a integração da
própria gestão escolar.
Ademais, o atendimento em tempos e espaços ampliados traduz uma outra cultura
em relação à oferta da educação. Cultura esta que será construída e terá como referência
não somente o tempo cronológico ampliado na relação com o conhecimento, mas o
tempo de aprender mais em mais tempo - objetivo precípuo da educação integral na
escola em tempo integral.
Não há proposta pedagógica nem atitude didática que sustentem a inércia de paredes e de móveis. É
preciso garantir da mesma forma a alimentação, a higiene, a saúde, o descanso, o ócio. Nenhum
fundamento educacional também vai indicar que a extensão do tempo de um só turno para o período
integral, sob o prisma de seguir a mesma proposta pedagógica da escola, irá garantir um melhor
aproveitamento”. (ARCO-VERDE, 2003) [...]
Assim sendo, ainda conforme Arco-Verde, o tempo escolar não pode ser o tempo
cronológico e o tempo físico não pode ser mitificado ou definido pela tradição escolar.
Este tempo está subordinado a uma proposta pedagógica que pressupõe um currículo
integrado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS


A respeito dos questionamentos destacados no início deste texto, ainda que de
forma não linear, objetivou-se fundamentar e trazer algumas reflexões em torno de uma
concepção de educação que não dissociasse o fazer do pensar, a prática do estudo, a
arte da ciência, o corpo da mente e o trabalho da educação. Contudo, esta relação
trabalho - educação não se consubstancia numa relação mercadológica e utilitarista,
pelas quais se expressam as relações no capitalismo contemporâneo. Pelo contrário, ao
se entender que pelo trabalho o homem historicamente se humanizou, uma vez que não
separou o ato de produzir de sua fruição: pelo trabalho ele cria, se apropria do que cria e
se emancipa. Este ato de criação, de produção, de fruição se espraia na escola visando a
formação do sujeito de forma integral, ou seja: íntegro, pleno, inteiro. Esta é a concepção
de educação integral que, para se tornar essencialmente efetiva, deve pressupor a
extensão da carga horária e a integração curricular. Isto significa dizer que a ETI deve, ao
longo de seu processo de implementação e planejamento, ter como propósito uma
formação integral, na perspectiva de um currículo integrado.
As experiências, os estudos e as proposições até agora conhecidas apontaram
para a necessidade de se reconhecerem as insuficiências e limitações, tanto conceituais
quanto operacionais que permearam historicamente a implementação da ETI.
É na intenção que se precisa fazer este reconhecimento, uma vez que esta
educação não pode ser tomada como ação paliativa e pontual, como uma ação
compensatória e assistencialista, mas consolidada e legitimizada como política pública de
direito.
Entende-se e defende-se que todas as propostas sejam construídas aos poucos,
com as condições concretas possíveis, avançando calmamente para uma concepção
mais elaborada de integralidade. É importante começar. Ainda que sem todas as
condições dadas já no ponto de partida, é preciso que se tenha em mente para onde
caminhar, que concepção se almeja, o que se deseja ou não e, a partir daí, definir
políticas que possam ir ao encontro destas intenções.
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